A Imprensa Vimaranense nas primeiras décadas do século XX

Na segunda metade do século XIX e sobretudo durante as primeiras décadas do século XX, a imprensa foi o meio de informação privilegiado, predominando sobre outras formas de escrita. Para o escritor a imprensa era, em primeiro lugar, um meio de sustento. Viver da escrita significava talento e desembaraço intelectual.

A expansão dos jornais deveu-se sobretudo a evolução das técnicas de impressão e à expansão da indústria tipográfica. Progressivamente, o preço dos jornais baixou e a quantidade de informação foi crescendo regularmente.

A partir da década de 80 do século XIX, o número de títulos cresceu substancialmente. Em 1880, havia cerca de 200. Em 1900, o número cresceu para 416. Dez anos depois, aquando da implantação da República, o número ascendeu a 543. Em 1930, havia 662 títulos. No final da década de 80 do século XX circulavam em Portugal 1205 periódicos. A imprensa vimaranense acompanhou esta tendência. O gráfico 1 evidencia um crescimento praticamente contínuo do número de títulos até ao final da Primeira República. Esta tendência inverteu-se com a instauração do Estado Novo.

No princípio do século XX, a maioria dos jornais publicados no país tinha uma periodicidade semanal (64%), a maioria destes periódicos (67%) apresentava uma tiragem que variava entre 200 e 800 exemplares e praticamente metade tinha índole política. Praticamente só em Lisboa e no Porto havia jornais diários. As tiragens reduzidas, sobretudo nos meios menos favorecidos, respondiam a uma procura restrita, condicionada pela reduzida taxa de alfabetização. No distrito de Braga esta taxa era de 43%, aproximadamente. Semanalmente, nesta cidade, circulava um exemplar para cada 3 homens alfabetizados.[1]

Em Guimarães, praticamente todos os jornais das duas primeiras décadas do século XX eram semanários: “Commércio de Guimarães”, “A Alvorada”; “O Republicano”; “A Velha Guarda”; “Imparcial”; “Restauração”; “Gil Vicente”; “Echos de Guimarães”;  “Castello de Guimarães”; “A Justiça de Guimarães”; “O Regenerador”; “Notícias de Guimarães”; entre outros. Alguns, como o “Realista”, “A Sentinela”, “O Despertar”, “O Caloiro” e “O Melro”, eram publicados quinzenalmente.

Relativamente à sua estrutura, os jornais deste período eram constituídos, geralmente, por quatro páginas. Tinham um editorial, noticiário e um folhetim no rodapé da primeira página. Este podia ser serializado, geralmente do género rocambolesco ou sentimental. Havia também ensaios nas colunas. Os jornais de Guimarães não fugiam muito a esta organização.

Na década de 1880, os jornais introduziram títulos e subtítulos a separar o texto a apostaram na entrevista pessoal. Na transição do século dá-se a explosão das artes ilustrativas mercê, como já referimos, dos desenvolvimentos das técnicas de impressão tipográfica. Há uma aposta cada vez maior nas gravuras. As técnicas publicitárias caracterizam-se pelo seu ”carácter intuitivo, cândido e primitivo”. Os estilos reflectem o gosto da época, misturando o vitoriano, predominante na segunda metade do século XIX, com a “art nouveau”[2]  Neste particular, os periódicos vimaranenses dão também os primeiros passos na arte da ilustração.

Publicidade à Confeitaria Prisiense. Jornal O Republicano (916)

Figura 1 – Anúncio Publicitário à Confeitaria Parisiense – Semanário  vimaranense “O Republicano”, segunda década do século XX.

Era comummente aceite que um bom jornal devia estar alinhado. Não exactamente por uma facção mas por um ideário. Num momento de fortes paixões políticas, os jornais foram usados como um dos importantes instrumentos de luta partidária e ideológica. Mais do que órgão de informação, um jornal era arma de combate. A imprensa era o palco do debate político, da crítica mordaz e da intriga. As bases dos partidos políticos eram muitas vezes os seus jornais, “a redacção era a sua sede.”[3]  Praticamente toda a imprensa servia uma política. Tal dependência, não traduzia apenas parcialidade. Significava também que o jornal vivia da política, de um grande editorial e de extractos do Parlamento e da legislação[4].

Em Guimarães, tal como ocorreu nas restantes localidades do país, havia jornais com diferentes alinhamentos partidários ou ideológicos. Nas primeiras décadas do século XX, no panorama da imprensa vimaranense, coexistiram jornais que serviam os diversos espectros político-ideológicos. Havia os jornais monárquicos: “Commercio de Guimarães”; “Gil Vicente” e “Echos de Guimarães. Havia os jornais republicanos: “A Alvorada”; “O Republicano”, propriedade do Centro Democrático Vimaranense; “A Velha Guarda”. Havia periódicos apelidados de democratas: “Povo de Guimarães” (jornal do “povo e pelo povo”) e progressistas, como o “Notícias de Guimarães” e o “Correio de Guimarães.

De modo persistente, os monárquicos defendiam acerrimamente a Monarquia e o Rei e denegriam a política republicana na administração concelhia e no poder central. Por seu turno, os progressistas e republicanos criticavam amiúde e de forma implacável o conservadorismo dos monárquicos e da Igreja.

Os seus redactores estavam atentos aos acontecimentos publicados nos jornais nacionais e estrangeiros, divulgando-os em segunda mão e com a sua própria interpretação. Na prática limitavam-se a fazer uma redacção do que liam nos jornais estrangeiros.

Nas primeiras décadas do século XX, a agitação política e social, a crise económica e a I Guerra Mundial proporcionaram aos redactores abundante material jornalístico. Na primeira página destes semanários, abordaram-se temas como a política nacional, a emigração, a condição da mulher, as guerras e revoluções no mundo. Nas páginas interiores, divulgavam as notícias sobre a actividade das instituições locais como, por exemplo, a Santa Casa e as associações de classe.

Figura 2 – Palavras de ordem contra os Republicanos pouco antes da Implantação da República (Commercio de Guimarães, edição de sexta-feira, 19 de Agosto de 1910).

Outros periódicos eram propriedade de instituições ou associações locais, de natureza religiosa, social ou económica e funcionaram como o seu principal meio de propaganda. Um bom exemplo de um jornal com interesses corporativos foi “O Despertar”, publicado entre 1914 e 1915 e “defensor dos interesses dos empregados do comércio e indústria”.

António de Castro Martins, no primeiro número de “O Baluarte”, Órgão do Círculo Católico de Operários de Guimarães, escreveu que este periódico democrático-cristão  “combaterá, com todo o vigor e energia, em defesa do operariado catholico; vulgarizará as melhores doutrinas sobre a questão social, e apresentará uma recompilação ou resumo dos assumptos mais importantes, referentes à acção social cathólica em o nosso paiz e no estrangeiro.” [5]

Do mesmo modo, o Jornal a «Justiça de Guimarães”, auto-designado por “Órgão Social e Defensor das Classes Trabalhadoras”, no seu primeiro número, em 1872, traçou seu programa nas frases seguintes: «A Justiça de Guimarães é pendão humilde; mas corajoso, erguido em frente do direito e do escárnio da lei. Surge em socorro dos desgraçados e para defesa dos oprimidos”. E mais adiante continua: «as armas deste jornal são leais e descobertas: são os factos: escandalosos, avultando perante a abominação pública.”

Na edição de 12 de Fevereiro de 1905 este semanário publicou um artigo com o título “Crime sensacional – Uma criança recém-nascida estrangulada pela mãe – um padre pai da criança – a nossa atitude – como se descobriu o crime – confissão da criminosa – notas várias”. Previne o leitor de que o que vai ler “é verdadeiramente pavoroso, é detestavelmente repugnante, são efeitos indestrutíveis do embrutecimento do nosso povo pela educação religiosa, da bestialização das consciências pelas regras do confessionário, da depravação dos costumes pelos embustes de sotaina corruptos e devassouma mulher, fanática em extremo pelas coisas da igreja, dera à luz uma criança filha do padre, seu confessor, que em seguida fizera desaparecer”. Este verdadeiro folhetim, que preencheu grande parte das edições de 12 e 19 de Fevereiro, constituiu um violento ataque ao padre de uma das paróquias do concelho e ao clero em geral.

Sabemos que a principal razão do surgimento deste periódico foi a necessidade de denunciar e condenar as prepotências do juiz da Comarca o Dr. Henriques de Sousa Seco.[6]

Os jornais de Guimarães, tal como os do resto do país tiveram um papel importante como moderadores de conflitos locais. Constatamos este papel conciliador, mesmo nos periódicos mais politizados, durante a onda grevista que assolou o país nas duas primeiras décadas do século XX e na agitação social provocada pela crise de subsistências no final da segunda década. Os apelos à calma e ao respeito pela ordem pública foram sendo repetidos pelos redactores dos principais jornais. Além disso, a imprensa colaborava frequentemente em campanhas de solidariedade e os seus directores ou redactores eram filantropos importantes no meio local.

Além desta imprensa assumidamente política e informativa, havia a imprensa popular mais do que a informação visava o entretenimento. Aliás, o êxito da “imprensa republicana” em Portugal deveu-se na opinião de alguns estudiosos, não tanto ao republicanismo mas sobretudo a este carácter sensacionalista[7]. Os jornais mais claramente doutrinários e menos sensacionalistas eram os menos lidos e os que consequentemente passavam por mais dificuldades.

Em Guimarães, durante as três primeiras décadas do século XX, foram publicados os seguintes periódicos humorísticos ou satíricos:  O Zirro (de 1887 a 1888);  O Fefial (de 1896 a ?);  O Grulha (de 1898 a 1898); O Malho (de 1914 a 1914);  O  Melro (de 1914 a 1914);  O Bando (de 1915 a 1915); O Melro (de 1915 a 1915); Aurora Académica (de 1915 a 1915); O Espião (de 1915 a 1915); O Pardal (de 1916 a 1916); A Sentinela  (de 1916 a 1917); Gil Vicente (de 1918 a 1924); O Taralhão (de 1924 a 1924); A Urtiga (de 1925 a 1926) e o Zezista  (de 1930 a 1930), entre outros.
Neste género destacamos A Parvónia, publicada em 1895, com a colaboração do “Diabo” e do “Diabinho”. Sob o pseudónimo de “Diabo”, ocultava-se o Dr. João de Meira, o “Diabinho” era António Garcia de Sousa Ventura. Foi considerado um “bisturi afiado a escalpelizar os tumores, as podridões da sociedade de então.”[8]

Havia ainda títulos, de carácter literário, dedicados às damas vimaranenses. Destacamos O Bijou, (de 1886 a 1887);  A Joia (de 1887 a 1888);  O Ideal  (de 1898 a 1898) e a Pérola ( de 1904 a 1905). Eram publicações com uma vida editorial muito curta, sinal de algum voluntarismo e de improviso na sua génese e de falta de sustentabilidade financeira.

A completa ausência de censura facilitava a licença. A partir de 1890 legislou-se um maior controlo da imprensa mas nada disso afectou realmente a liberdade de imprimir e escrever. Em finais de Oitocentos foram apertadas as rédeas sobre a imprensa, proibindo-se o que os juízes considerassem ofensivo ou subversivo, mas os jornais, sobretudo os doutrinários continuaram publicar toda a espécie de rumores, insinuações e segredo de alcova que servisse a sua causa…”[9]

Finalmente é importante referir que os articulistas destes jornais eram geralmente a nata intelectual local. Uma destas personalidades foi António Lopes de Carvalho, escritor, publicista e jornalista. Nascido em Guimarães, em 18 de Julho de 1881, desempenhou vários cargos de natureza política e administrativa na Cidade de Guimarães, incluindo o de presidente do Município. Fez parte, durante alguns anos, da Direcção da Sociedade Martins Sarmento. Foi Director do semanário republicano “A Alvorada”. Outro vimaranense ilustre e publicista foi Mariano da Rocha Felgueiras, bacharel em Direito. Foi membro do Centro Republicano, pertenceu ao Partido Republicano Português e mais tarde ao Partido Democrático. Foi vice-presidente da comissão administrativa da Câmara Municipal de Guimarães durante vários anos. Posteriormente, presidiu essa comissão e durante alguns meses foi presidente da Câmara. A 3 de Fevereiro de 1927 participou activamente no Movimento Revolucionário que irrompeu em Guimarães e se concentrou no Porto. Colaborou intensamente com a imprensa local, tendo exercido o cargo de director do jornal “A Velha Guarda”. Eduardo de Almeida um ilustre republicano de Guimarães, foi redactor principal do “Republicano”. [10]


[2] Almeida, Hugo de  – Jornalismo Vimaranense . Lição Vibrante de Amor à Terra in http://www.csarmento.uminho.pt/ndat_32.asp

[3] História de Portugal – A Segunda Fundação. Coordenação de Rui Ramos. Direcção de José Mattoso. Editorial Estampa, pp45-54.

[4] Almeida, Hugo de  – Jornalismo Vimaranense . Lição Vibrante de Amor à Terra in http://www.csarmento.uminho.pt/ndat_32.asp

[5] História de Portugal – A Segunda Fundação. Coordenação de Rui Ramos. Direcção de José Mattoso. Editorial Estampa, pp45-54.


[6] Jornal “O Baluarte”; 13-11-1904, p.1


[7] História de Portugal – A Segunda Fundação. Coordenação de Rui Ramos. Direcção de José Mattoso. Editorial Estampa. pp 45-54.

[8] Idem, pp. 45-54.


[9] Vieira, Joaquim Portugal (1999) – Século XX. Crónica em Imagens – 1900-1910. Círculo de Leitores. P. 68


[10] História de Portugal – A Segunda Fundação. Coordenação de Rui Ramos. Direcção de José Mattoso. Editorial Estampa. Pp45-54.

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